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Qual é a importância da linguagem visual da categoria?

Ninguém gosta de ser rotulado, mas faz parte da natureza humana rotular, classificar, categorizar ou seja encaixar o objeto* em algum padrão já conhecido.

Normalmente quando não conseguimos fazer isso, o objeto* nos causa um certo tipo de inquietação, que faz com que algumas pessoas o ignorem por não compreendê-lo e, outras que pelo mesmo motivo buscam conhecê-lo melhor.

Uma das premissas básicas do design de embalagem é estudar e compreender a categoria/subcategoria em que o produto compete, para evitar que o consumidor confunda seu produto com algo que ele não é,  ou ainda pior,  ele não ser considerado na hora da compra de um produto da categoria em que ele compete. Por esse motivo, não vemos abordagens realmente inovadoras em quase nenhuma categoria de produtos, o medo de perder market share, muito $$$ e consequentemente seu emprego, ou uma mancha em sua carreira, justifica o conservadorismo.

Quando visitamos um supermercado essa “categorização” fica evidente e, conseguimos identificar a “gôndola de biscoitos” a “gôndola de detergentes” e assim por diante. Embora o design de embalagem seja gerido por profissionais competentes em conjunto com escritórios de design igualmente competentes, o que vemos é uma grande “mesmice” de linguagens visuais.

Quando um dos players faz uma pequena mudança, que mexe um pouco com as regras da competição é natural uma reação. em que os outros players o acompanhem (copiem). Costumo dizer que existe uma retroalimentação dos produtos e de suas respectivas linguagens visuais.

Em muitas categorias de produtos, se “pegarmos” todos os players e “fizermos” um “mash-up com as embalagens, trocando apenas as logomarcas** , tenho certeza, que muitos consumidores não notariam a diferença.

É raro encontrar marcas que conseguiram construir uma identidade diferenciada, reconhecível e indissociável. Eu, de forma amadora costumo acompanhar quando encontro uma marca com essas características e, percebo que elas colhem os frutos do sucesso por essa coragem de ser únicas.

Mas quero deixar claro, que esse sucesso não é apenas por causa do design, identidade visual ou comunicação diferenciados.

O design, a identidade visual e a comnunicação são consequência de um produto(s) com qualidade(s) diferenciada(s), além da própria gestão da empresa. Lembrando que, nós, não separamos o produto do seu design/identidade visual, eles formam uma única entidade.

Para exemplificar, vou utilizar a marca Diletto, uma marca italiana de sorvetes criada pelo Sr. Vittorio Meneghini Scabin, que foi ressuscitada pelos netos e lançada no Brasil provavelmente no ano passado.

Sua Identidade Visual não está inserida na Linguagem Visual da categoria de sorvetes nem mesmo na subcategoria de sorvetes premium.

Ela possui uma Identidade Visual proprietária, ela não faz referência e nem utiliza nenhum signo que a insira na catergoria de sorvetes.

Por outro lado ela utiliza como signo a imagem de um urso polar, que faz referência direta a algo gelado.

Analisando de forma semiótica, temos um conceito bem interessante. O urso polar, apesar de não ser um animal muito amigável (ele é carnívoro, e vê o homem como presa), quando representado por uma ilustração ele acaba se transformando em um signo de carinho, “gostosura” e “fofura”, resumindo, se eu fosse mulher dirira:

– Você olha o ursinho e, fica com vontade de morder.

Sua cor branca é consequentemente, interpretada como pureza, por ser um branco levemente amarelado, a ilustração fica mais gostosa e “aconchegante”.

A primeira vez que comprei um Diletto, o que estava na moda era o sorvete coreano melona. Confesso, comprei meu primeiro Diletto por causa da embalagem que me encantou, a qualidade do produto confirmou, reforçou e potencializou o que a embalagem comunicou.

Eu acho a identidade visual e o design das embalagens da Diletto, único e sofisticado, mas como disse anteriormente eles são consequências e reflexo de toda uma preocupação e cuidado com a qualidade diferenciada do produto.

Essa preocupação faz dessa marca com aproximadamente 1 ano de Brasil, um sucesso, procurei críticas negativas na “rede mundial de computers” e, não encontrei. Só encontrei opiniões positivas a seu respeito, e, olha que é um produto caro (já encontrei por R$4 e por R$8) se comparado com outros sorvetes. Mas como disse, apesar de ser um sorvete ele não é percebido como um sorvete ele é percebido como um Diletto.

Para entender melhor isso, faça uma rápida busca na “interwebs” ou observe as pessoas.

Normalmente, elas dizem:  – Vou comprar um picolé de limão ou, eu adoro picolé de limão, raramente citam a marca do produto.

No caso da Diletto, as pessoas dizem: – Hoje é dia de um Diletto de Limão Siciliano ou, amo o Diletto de Framboesa, resumindo e repetindo, o picolé da Diletto não é reconhecido como picolé é reconhecido como Diletto.

Embora eu não ganhe 1 centavo por isso, fico feliz e inspirado, quando vejo uma marca realmente diferenciada fazer sucesso.

Isso reforça minha teoria, que não devemos fazer o que o cliente pede e quer, devemos buscar a excelência naquilo que fazemos, para o cliente pedir e querer.

ps: Parece que eles estão lançando a versão em massa \ o /

*objeto = qualquer coisa a que fazemos referência, seja ela concreta ou abstrata.

**logomarca = para os designers fundamentalistas e talibãs, me errem.

Links:

Diletto

Pequenas Empresas Grandes Negócios

Less is more | Menos é mais – Teoria aplicada na embalagem

O conceito less is more | menos é mais, é um dos conceitos mais difíceis de ser aplicado, exige uma habilidade, um grau de refinamento e repertório visual que poucos possuem.

Um bom exemplo disso são os trabalhos all type, para as pessoas com menos repertório e cultura visual parece simples, mas quem já teve a oportunidade de fazer experimentos ou trabalhos com esse conceito, sabe o quanto é demorado e cansativo chegar a um resultado satisfatório. Para os que tem um bom repertório e cultura visual é fácil distinguir um trabalho feito com cuidado/refinamento e outro feito nasco*, o engraçado é que se você mostrar um trabalho bem feito para um leigo e depois mostrar um feito nasco* ele praticamente não vai notar as diferenças, mas se você colocar os dois juntos e perguntar, qual ele mais gosta é quase certeza que ele escolherá o trabalho bem feito, mesmo não sabendo o porquê.

Eu defendo que o bom Design de Embalagem é aquele que consegue traduzir o conceito do produto e da marca.

Essa idéia é confirmanda com uma pesquisa, realizada pelo comitê de estudos estratégicos da ABRE (Associação Brasileira de Embalagem) em parceria com a Research International, os consumidores (pessoas) não separam o **produto da embalagem, eles percebem o **produto e a embalagem como uma única entidade.

Um bom exemplo disso, é o novo produto da Haagen Dazs, o Five Ice cream, o conceito é utilizar apenas 5 ingredientes para a fabricação do sorvete que faz, com que o produto tenha muito menos aditivos artificiais, deixando-o mais “natural”, que é uma tendência de consumo.

O Design das embalagens está excelente, como a maioria das embalagens da Haagen Dazs. Ela preserva a arquitetura da marca e com um layout clean e refinado consegue traduzir com excelência o conceito do novo produto além, de fortalecer o Brand Equity da marca.

* Expressão para “nas coxas” que significa ser feito por pessoas não capacitadas ou ser feito de qualquer jeito, sem cuidado.

•• Não se aplica aos produto de linha branca ex: microondas, geladeira, … .

Simplicidade é a complexidade revolvida. “Constatim Brancusi | Escultor Romeno – retirado do livro A cabeça de Steve Jobs”.

Links:

Haagen Daz Five

Springwise

Know or ever